Pesquisar este blog

sábado, 16 de março de 2013

pontos de conforto





faltam-me, aqui e ali, pequenos pontos de conforto:

o cúmplice aconchego das mãos
o trivial amuo das manhãs
um ombro apoiando o meu queixo
um post-it amando-me pela tarde
a sobreposição dos corpos em repouso
o toque de cristais em atracção
um olhar da cor do entendimento
um beijo esquecido no sofá
a discussão breve da notícia
a partilha do humor e da malícia
a cama, acusando outro cansaço
quem me diga que gosta do que faço,
do que escrevo,
do que digo,
do que nego,
do que sigo.

faz-me falta algo mais que o teu corpo.

terça-feira, 12 de março de 2013

Fatal desígnio





Devolve-me as promessas que te dei
Quando era inocente dos teus vícios,
As palavras de amor que te jurei
Sem saber dos teus intentos malefícios.

Devolve-me toda a fé que professei
Numa vida de feliz serenidade,
A esperança que em ti depositei
Sem temer a anunciada tempestade.

E eu volto a querer-te em brisa amena,
Barco ao largo ao sabor do perdoar
Que perpassa só ao longe o meu olhar...

E eu volvo o amor que me condena,
Dos primórdios do encanto e do fascínio
Ao averno que me é fatal desígnio!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

apontamento lateral




se não dissesse, morria,
se não escrevesse, matava,
não há vida mais vazia
que, sem pena, ser escrava.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Egolatria

Não.
Não é de ti que falo,
quando digo

as tuas mãos de silêncios
que sabem tolher poemas


nem tão-pouco quando penso

magoas-me um beijo frio
na lâmina do teu sorriso


nem mesmo quando me firo

nas cicatrizes antigas
onde a pele entardeceu
.

Não prossigas!
-
o vício perdeu o jogo,
nem tudo o que arde é fogo,
nem tudo o que dói é teu!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

excruciante

 


percorre-me o corpo uma agulha afiada:
excruciante dor que me viaja
do rosto às pernas
do beijo ao soco
dos olhos às costas
da mão

sorte a minha
se me não chegar ao coração

azar intermitente
que me dói mais quando é ardente
-OH*



CH3CH2OH - fórmula química do álcool (etílico)



sábado, 20 de outubro de 2012

Tóxico

O teu perfume já se dissipou,
não ficou,
deu a saudade ao vento
que, em troca,
o levou para longe
dos sítios onde perdeste tempo

(ninguém perde o que nunca teve...)

O teu perfume já desvaneceu,
já se perdeu,
entre o tempo e o espaço
entre nós,
subiu ao alto,
esgotou todas as notas de base

(notas de saída, depressa se esquecem,
e as do coração, nem sempre acontecem)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Cansei de esquecer que sei



Já me esqueci de saber chorar.
Águas salgadas
-dizem-
corrompem os frágeis canais
que levam os estímulos
do coração à memória
-longos dilemas.
E eu venho de longe,
petra e (s)algema,
dos confins duma história
cravejada de sais.
Já me esqueci de saber o caminho.
Rastejo,
rasgada,
em subterrâneos labirintos,
ferindo-me nos cristais
que brilham no escuro,
iludindo-me absintos...

Do esquecer ao lembrar vai um passo
e sei que esquecer que sei
é cansaço.