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sábado, 16 de abril de 2011

 
Beija-me, silêncio...
 
Há gritos que me cercam,
Sitiantes,
Sinistros,
Fustigando ventos
Que se compadecem
Da minha pele salgada
Pela sede de chuva,
Pelo apetite do mel.
Cai-me um sol a pique
Nos lábios gretados
Por um sorriso posto
A cravos e espinhos
Na estilizada cruz
Que me sombreia os olhos
E me rasga as narinas
Em sopro asfixiante…
Ruídos ribombam,
Intrusos,
Obtusos,
Confundem-me os traços,
Aturdem-me os sonhos
De sempre perdidos,
De agora exigidos…

Beija-me, silêncio,
Que quero voltar
Ao útero
Da inocência…

sábado, 2 de abril de 2011

MÁSCARA

Eu sei...
da mentira, o gume
que me corta os lábios
da verdade oclusa.

Eu sei...
da verdade oculta
que me trai o beijo
por moedas falsas.

E vou,
relegando a vida,
relevando a dor...

morro,
em verdade,
um sorriso ao dia...





Que eu seja ceguinha...
Acredito.
Piamente.
Que eu seja ceguinha, se não acredito.
Que o que dizes tem a consistência pastosa
do que me fizeste engolir à força
e agora vomito em espasmos
de alívio.
Acredito.
(Vê lá,
tanto tempo de fermentação,
mais o muco da tua indigestão,
é capaz de te fazer mal...
a longo prazo, que agora,
acredito,
piamente,
que seremos amigos
lá pelo Natal...)


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

...porque tu e eu nunca fomos nós.

Não adianta analisar os verbos
ou separar sintagmas,
comparar acervos
ou analisar magmas -
a nossa atracção já não é força,
é gravidade sem razão ou espaço,
o nosso código já não é morse,
porque a cegueira acusa o cansaço.
Deixa as palavras em imponderabilidade,
separa os nossos já polutos pós,
regredamos à individualidade...


 

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

CONTA-GOTAS

Debito,
a cada golpe,
uma gota impura,
adulterada por laivos
de amargura.
E como um golpe nunca vem só,
duas a duas,
eu conto as gotas
da minha dor:
duas a duas,
deslizam lágrimas
pelo meu rosto,
lavando a cor,
levando o viço
da pele ferida
pelo desgosto...





segunda-feira, 18 de outubro de 2010

estigma

O espaço que nos liga
esquece-me a asfixia da palavra,
e engole-me viva,
sem me dar tempo de dizer-te
[...quanto te amava...]
o resto do meu tempo inútil,
era de gelo,
ironia do ter sido luz
sem a incandescência do sangue,
tua, sem a obediência da sorte,
crente, sem a transparência do cálice
onde me bebo
em lágrimas.











sexta-feira, 8 de outubro de 2010

SE TU SOUBESSES LER UMA CARTA DE AMOR...

Se soubesses ler uma carta de amor, meu amor, eu voltaria no tempo, só para te escrever uma.
E dir-te-ia dos pássaros, que, por amor, voam horizontes perdidos até achar a equivalência do amor, nuns olhos de voo igual. E falar-te-ia das flores, que coabitam espaços só para criar jardins. E contar-te-ia as vezes que o vento muda de norte ou se veste de brisas, só para não magoar nuvens tresmalhadas ou não desviar beijos fugazes.

Falar-te-ia da confiança com que a semente se enterra na terra, húmida e fria. E da fé nascida nos olhos, frágil e pequenina, a necessitar do amparo de mãos amorosas, para a cuidar...
Da consciência da própria individualidade, para aprender que ao nosso lado existe gente. Que também sente.

Falar-te-ia ainda, se tu soubesses ler uma carta de amor, meu amor, que o amor nasce perfeito. Que nasce nú e inocente de pecado original.

Pedir-te-ia, meu amor, - se tu soubesses ler uma carta de amor e se eu pudesse voltar no tempo, - que me amasses como quem ama uma flor. Que me cuidasses como se me tivesses amor. Que me respeitasses com se eu fosse Tua. Igual e Mulher. Companheira e Forte. Flor e Frágil.

Dir-te-ia, amor, que comeria contigo a maçã, sim. Que correria todos os riscos contigo. Que não me importaria de ser expulsa do Paraíso. Que não me importaria de me vestir, por pudor, e, tão pouco, que só tu soubesses o tom da minha pele. E que, muito para além da pele, o meu maior gosto seria ser só tua, em pensamentos, palavras e emoções... (mesmo em omissões...) por amor, tudo isso, só, só, só, por amor.

Mas eu sei que sempre soube que nunca serias capaz de ler uma carta de amor... e esse foi o meu pecado mortal: ser capaz de as escrever...

Mesmo assim, meu amor, escondi-as todas, para não te inspirar ciúmes das palavras.
E regurgitei a maçã, para me purificar por dentro.
E deixei que me marcasses, para afirmares a tua posse.
E transformei-me em mãe, para conseguir amar-te.
E amei-te, para disfarçar o medo.
E temi-te, para sobreviver.
E fui só tua... mesmo amarfanhando todas as cartas de amor que não te escrevi.